Todos os dias quando eu chegava da pré-escola em casa eu largava a minha lancheira, tomava café, ia pro meu quarto, bagunçava uns brinquedos, esperava a minha mãe se distanciar e puxava de baixo da cama... A MINHA REVISTA SECRETA DE FOTOS DO LEONARDO DICAPRIO!
Eu tinha uma amiga que era mais velha que eu com quem eu trocava fotos e matérias de revistas sobre artistas que a gente gostava, normalmente ela me dava coisas sobre o Rouge, até que um dia ela trouxe uma coisa diferente, especial, linda e "proibida". A revista continha apenas fotos, que iam desde quando o Dicaprio era criança até quando ele já estava bem crescidinho.. eram fotos espetaculares que a minha mãe ia me matar se soubesse que eu tinha, porque eram meio indecentes, meio promiscuas, meio "coisa de adulto", eu sabia que não podia estar vendo aquilo e várias vezes até pensei em dar um sumiço na revista, eu tinha vergonha até de mim mesma quando eu separava meus sagrados momentos do dia pra cultivar a beleza do Dicaprio naquela situação, mas eu não podia deixar ele.. ele era tão lindo! Demoraram anos pra minha mãe descobrir ela (Graças à Deus!), eu mostrava ela apenas para pouquissimas amigas de confiança que mereciam estar vendo tudo aquilo e que não iam contar pra ninguém, ficou guardada durante anos no meu coração nos lugares mais obscuros do meu quarto e eu tenho ela até hoje, porque fotos como aquelas realmente mereciam serem tratadas com tanto carinho e discrição.. Ah, se mereciam!
Eram fotos sem camisa.
Quando a gente tem 6 anos de idade e acha que sexo é "se beijar tanto, mas taaaanto, que de repente, você fez" e fica pedindo pras pessoas mais velhas se beijarem de língua na sua frente pra você ficar observando e tentando entender como aquilo funciona, porque, MEU DEUS, QUE NEGÓCIO COMPLICADO!, é meio dificil definir "amor", né? Mas sempre tem aquele menino que todas as meninas do pré acham lindo, e claro, você também, e a coisa mais legal pra se fazer na aula não é mais desenho livre, e sim, ficar observando o fulaninho sem a professora te xingar, ou sem algum outro coleguinha perceber e espalhar pra turma inteira (mesmo que todo mundo já saiba).
O meu fulaninho era o Leonardo (o que eu achava o máximo porque eu tinha, além da paixão secreta pelo Leonardo do pré, uma paixão secreta pelo Leonardo Dicaprio!), ele tinha olhos verdes e uma franja reta (tipo cabeça de coco) que eram a coisa-mais-linda-do-mundo! Como o Leonardo era o eleito menino mais bonito da turma ele "TINHA" de ficar com a menina eleita mais bonita da turma (que óbvio que não era a menina que passava o tempo todo com o dedo no nariz: eu), a cachorra Stefanni. O legal do Leonardo, ou não, era que ele era uma pessoa solidária com todo mundo! Com o tempo ele passou a perceber esse "poder" que ele tinha na turma e então, ao alto dos seus 6 inocentes anos de idade, criou um sistema onde a cada dia da semana ele escolhia uma menina da turma pra namorar. Pra que ficar com uma, se pode ter todas? E então um dia, um unico dia do ano, ele me escolheu. Na verdade o nosso namoro de um dia foi tão sem graça que eu nem ao menos consigo me lembrar o que a gente realmente fez, que provavelmente foi ir à todos os brinquedos da pracinha juntos no recreio, mas eu me lembro que aquele dia eu cheguei em casa correndo/pulando/dançando/gritando/dando cambalhotas/abraçando geral/beijando o cachorro/rolando/escalando os sofás/jogando ursos de pelúcia pra cima/etc, a cara da minha inocente vó era de apavoramento "Ué.. hoje ela brincou bastante com as amiguinhas no colégio... chegou faceira... deve ser isso" FALA SÉRIO, VÓ! Naquele dia eu tinha sido eleita a miss Brasil pré, garota verão da escolinha, nem a garota do fantástico poderia estar mais feliz do que eu! No entanto, no outro dia o Leonardo já tinha me esquecido.. foi dificil pra mim aceitar a situação, eu já tinha feito tanta coisa por ele... uma vez teve um passeio da escola em um lugar que haviam vários brinquedos infláveis, havia um que tinha uma ponte em que você tinha que andar enquanto jogavam bolas em você, eu odiava pontes, eu não tinha muito equilibrio, e eu definitivamente NÃO QUERIA ir naquele brinquedo! Mas... O Leonardo tava na fila. Entrei na fila do lado do Leonardo, a gente nem conversou, mas eu tava DO LADO DO LEONARDO! Chegou a nossa vez de ir no brinquedo, o Leonardo foi, passou pela ponte correndo, acabou. Minha vez: eu sabia que eu ia cair. Eu tava tremendo de medo. Eu não sabia o que fazer. E como uma criança de 6 anos é sempre muito inteligente, eu decidi me agachar e passar a ponte engatinhando. Acho que não deu tempo de dar sequer duas engatinhadas, uma bola me acertou na cabeça e eu cai e sai de lá chorando, foi chato, mas o pior não foi isso... o pior foi que o Leonardo nem me esperou!
Enfim, por essas e outras cachorragens do Leonardo eu, uma mulher que encarava tudo com muita fé que nem a Sandy, segui o meu caminho, mas não esqueci ele, claro, tem como esquecer uma criatura maravilhosa de olhos verdes, cabelo-cabeça-de-coco, que tem o mesmo nome do seu ídolo, eleito menino mais bonito da turma e que ia ser meu colega pelos próximos 3 anos? (Principalmente porque iria ser meu colega pelos próximos 3 anos.. se bem que até hoje em dia um garoto de franja tem o seu valor!) Mas eu estava decidida a não amar mais o Leonardo, passei a dizer pra todo mundo que odiava ele, O-D-I-A-V-A! Eu estava quase que totalmente liberta daquele amor, quando de repente, no outro ano, na primeira série, em um outro dia de glória, o Leonardo disse que gostava de mim! SÉRIO GENTE, DE MIM! A menina que assumidamente odiava ele! E eu que não era boba nem nada, não ia perder uma oportunidade dessas lá? Fui na classe e falei - E aí.. tu gosta de mim.. o que a gente faz agora? - E então a gente combinou de trocar carta, no outro dia os dois tinham que ter uma carta um pro outro. Cheguei em casa, recortei um coração de folha de oficio, peguei uma caneta, escrevi meu nome, e lá fiquei em uma eterna contradição na vida de uma criança apaixonada que está na primeira série: Como é que se escreve "eu te amo"? Sem saída pra situação eu tive que perguntar ao meu avô "é que eu to fazendo uma cartinha pra mãe" porque era óbvio que ninguém podia saber da minha paixão, né? Escrevi o nome dele (Leonardo eu sabia escrever há muito tempo, é claro!) e no outro dia lá estava eu, com a cartinha na mão, pronta para ser entregue, como o combinado, porém, o cachorro Leonardo não! "Ah.. é que eu esqueci" cara, que amor é esse que uma pessoa esquece de cultivar? No outro dia ele me levou um bilhete (um papel quadrado, normal, nada romântico!) com o nome dele e o número do telefone da casa dele (como se algum dia na minha vida eu fosse ter coragem de ligar!) peguei o papel na mão, olhei nos olhinhos verdes do Leonardo e rasguei, coloquei na lixeira da sala que ficava na frente da classe dele e nunca mais dei chance pro cafajeste Leonardo. Chega, agora sim eu era uma mulher livre, gravei no meu computador Baba baby da Kelly Key e passei a cantar na frente do espelho pensando nele quase todos os dias, "Não vou acreditaaaar nesse falso amoooor que só quer me enganar, me iludir, isso é caô, e pra não dizer que eu sou ruim eu vou deixar você me olhar, só olhar, só olhar!" me definia.
Enfim, quando você é criança e não sabe nem que tem que tirar a roupa pra fazer sexo e ainda esta tentando entender qual é a graça de enfiar a língua na garganta de outra pessoa e como fazendo isso ainda pode dizer que gosta dela, eu descobri o melhor de todos os amores, melhor que amar o cara do titanic ou o eleito bonitinho da turma com corte de cabelo cabeça-de-coco: o amor próprio.